sexta-feira, 9 de maio de 2014

Afinal, a dor muscular tardia é necessária ?


Depois de tantos anos na maromba, ainda me perguntam se é realmente válido ficar dolorido depois do treino e se não sentir a dor muscular tardia significa que o treino não foi eficiente. Quando devemos senti-la ? É correto tê-la ? Porque, algumas vezes, não a tenho ? Vejamos ...

A primeira sensação de dor muscular que estamos citando, na verdade, pode ocorrer durante (sim, pimpolho, isso mesmo que você leu, durante) o treino. Ela é provocada pelo acúmulo de metabólitos na musculatura. Metabólitos são “restos” produzidos pelas células e pelos órgãos. As células produzem energia a partir de glicose, o que não serve, ela coloca pra fora e isso cai na corrente sanguinea e é eliminado. Também o suor, as fezes e a urina são considerados metabólitos.

Imediatamente após ou durante o treino, esses metabólitos são decorrentes do trabalho muscular intenso, entre esses metabólitos está o lactato (ácido lático), que é um subproduto da segunda via metabólica de geração de energia (glicólise), que é a via principal durante os treinos de musculação.
O acúmulo dessa substância na musculatura leva a uma diminuição do pH intramuscular (acidez), que, para nós, se traduz em uma sensação de queimação e dor. 


Já a dor que é sentida após horas ou dias depois do treino com pesos (aquela que tem início não antes de oito horas após o treinamento e aumenta sua intensidade entre 24 e 72 horas) é chamada de dor muscular tardia (DMT) ou dor muscular de início tardio (DMIT).

A DMT é caracterizada pela sensação de desconforto e dor na musculatura esquelética, que ocorre algumas horas após a prática de uma atividade física à qual não estamos acostumados, especialmente se essa atividade enfatiza ações musculares excêntricas (movimento de desaceleração).

Essas sensações desconfortáveis vêm acompanhadas de diminuição da força muscular, por isso, o pimpolho que estiver com DMT deve ficar atento. Uma alternativa é treinar mais leve sempre que ela ocorrer, aumentando as repetições e/ou diminuindo o tempo de descanso. Alguns especialistas aconselham não repetir a sessão de treinamento para o mesmo grupo muscular até que a dor desapareça. Eu não ...

As causas da DMT ainda não são totalmente esclarecidas, mesmo o homem pisando na Lua, clonando ovelhas e reinventando mitos. Por muito tempo, acreditou-se que essa manifestação da dor estava associada ao acúmulo de lactato no músculo. No entanto, por mais alta que seja a concentração de lactato no período imediatamente após o exercício, evidências demonstram que o lactato retorna aos níveis de repouso em um período de 2 a 4 horas após a atividade (Agostinho Filho et al.,2006), fato que desmente a hipótese de o lactato ser o causador da DMT.

A hipótese mais aceita atualmente afirma que a DMT é conseqüência de um processo inflamatório que se instala por conta das micro-lesões proporcionadas pelo treinamento, principalmente se este enfatizar as ações musculares excêntricas (Foschini, Prestes e Charro, 2007;Powers e Howley,2005).

A origem da DMT pode ser entendida pela seguinte sequência :

1..) Exercício extenuante

2..) Micro-lesões estruturais nas células musculares

3..) Extravasamento de cálcio do retículo sarcoplasmático

4..) Ativação de enzimas (proteases) responsáveis pela degradação de proteínas celulares

5..) Resposta inflamatória

6..) Edema e dor

Apesar de parecer uma manifestação normal diante do exercício intenso, indivíduos marombeiros de carteirinha se tornam menos suscetíveis ao aparecimento da DMT. Isso de deve à adaptação ocorrida no organismo em conseqüência aos estímulos a ele oferecidos.


Mas porque a DMT não ocorre sempre ????

Segundo alguns autores, há 3 hipóteses que explicam isso

Teoria neural
Propõe uma alteração no padrão de recrutamento de unidades motoras e um maior número de fibras musculares é recrutado, o que sobrecarrega menos cada fibra muscular

Teoria do tecido conjuntivo
Propõe um aumento no tecido conjuntivo do músculo, oferecendo proteção durante o estresse do exercício

Teoria celular
Propõe a síntese de novas proteínas intracelulares que melhoram a integridade da fibra muscular.

Como o pimpolho que está lendo pode perceber, as duas últimas teorias relacionam-se diretamente com a hipertrofia muscular. Sendo assim, o estímulo proporcionado pelo exercício gera dor e o organismo responde com a hipertrofia muscular (YESS !!!!!) com o intuito de minimizar os possíveis efeitos “lesivos” da próxima sessão de treinamento.

Com base nessas informações, é possível concluir que a DMT é necessária para desencadear o fenômeno da hipertrofia muscular. No entanto, parece improvável que os danos e as dores musculares sejam essenciais para a adaptação.

Ainda assim, a presença da DMT, mesmo não sendo freqüente, parece ser o indicador de que o princípio da variabilidade de estímulos (mais conhecido como “troca minha série, fessô”) está sendo aplicado, evitando, assim, o aparecimento de “platôs”, também conhecido como “vou mudar de academia porque aqui já deu”.

Então, pimpolhos, o dodói anabólico é benvindo ...

Stay strong !
Betão

3 comentários:

  1. Muito BOM tio betão! Já havia lido antes, mas depois algumas pessoas vieram me falando que a "professora de anatomia básica" da UNIVERSIDADE tinha dito que não era necessário sentir essa dor para gerar hipertrofia, que isso era um mito e etc, astuto que sou, discordei e quando cheguei em casa a primeira coisa foi procurar no blogdotitiobetao e depois busquei as bases científicas (textos mais difíceis, comparado a essa síntese mastigada e gratuita) e mandei para essas alunas! Grande abraço betão, profissional que realmente busca ser um professor exemplar!!!

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