segunda-feira, 20 de junho de 2011

Força, Guerreiro !

Como todos já estão carecas de saber, há quase 1 ano iniciei o estilo de dieta e de vida do guerreiro. Mudanças drásticas já aconteceram comigo, desde uma elevada perda de gordura até uma vascularização que eu próprio duvidei que poderia ocorrer. Mas o que mais a dieta me reservaria ? Onde mais ela me levaria ?

Também é do conhecimento de todos que não tinha (agora tenho) a pretensão de competir, quer seja no powerlifting, quer seja no fisiculturismo. Sou um cara normal, que gosta de treinar e que, coincidentemente, trabalha com musculação.
Já participei de campeonatos de supino há muitos anos atrás, cheguei a participar da equipe de um renomado atleta aqui em Guarulhos, mas minha participação se resumia a levantar pouco mais que meu peso corporal, nada fora do extraordinário. E estava satisfeito com isso. Até que me deparei com algumas situações que me levariam a mudar de opinião de uma hora pra outra.
Primeiro, tive a oportunidade de escrever um artigo sobre um cara simplesmente fenomenal (Veja o artigo “Velho demais pra treinar”) chamado Stan Effeerding. O coroa é powerlifter, fisiculturista, forte pra caraca e um exemplo vivo dentro da musculação. Isso me incentivou a querer sempre melhorar, apesar da idade.

Segundo, um camarada, ex-fisiculturista, aqui de Guarulhos, todos os anos promove um campeonato de supino. Esse ano, ele veio entregar o cartaz pessoalmente aqui na Betoflex, um cartaz bonito, todo colorido, onde estava a premiação (troféu, suplementos), horário da competição, etc, etc, etc. Em um de seus comentários, enquanto a gente trocava umas figurinhas, relembrando o tempo de faculdade que estudamos juntos, ele comentou que eu poderia participar e tentar o segundo lugar. Perai ! Segundo lugar ???? Por que segundo ???? 

“Porque meu aluno, o Fulano (usei Fulano porque estou preservando aqui a identidade do Bruno .... ops!!!!!!) vai destruir lá. Você não vai ter chance mas pelo menos tenta o segundo lugar.”
Essa frase, seguida de um sorrisinho meio sarcástico, me deixou pensativo. Por que esse pré-julgamento do tio ? Qual seria o argumento do meu grande e querido amigo pra pensar que eu seria derrotado ? Foi aí que veio a explicação.

“Você emagreceu demais, hein, Robertão, deve ter perdido toda a sua força. E essa dieta maluca ai que você está fazendo. Pára com isso. Isso ai não tem explicação”.

Pois é, meus pimpolhos ... mais uma vez a culpada era a dieta do guerreiro ...  a dieta “maluca”, sem fundamento, que fará você morrer aos poucos, definhando dia após dia, perdendo força e tudo aquilo que você construiu, blá, blá, blá.


Realmente, a dieta não é de conhecimento de todos (graças a Deus!). Mas porque julgar algo que não se conhece ? Por que não questionar, perguntar, debater, sem atacar a pobre da dieta ? Volto aqui a perguntar : porque essa tendência a destruir e reprovar tudo o que não se conhece ? Bom, creio que essa seja a natureza humana, pelo menos da maior parte da população. E, revoltado com a situação, e mesmo sem estar fazendo nenhum tipo de treinamento específico, me inscrevi no tal campeonato de supino.
Para quem ainda não conhece uma competição de supino, explicarei, de modo resumido, as regras que foram aplicadas nesse campeonato. Essas regras podem sofrer algum tipo de variação, de acordo com o evento mas, no geral, são as que seguem abaixo :

(1) O levantador deve deitar de costas, com a cabeça, os ombros e as nádegas em contato com a superfície do banco. Os pés devem estar retos no chão (tão retos quanto a forma do calçado permita). Suas mãos e dedos devem pegar a barra posicionada no suporte com os polegares dando a volta na mesma (pegada fechada). Essa posição do corpo deve ser mantida durante todo o levantamento.

(2) Para conseguir firmar o pé no chão, o levantador pode usar placas com a superfície plana ou blocos, desde que não excedam 30cm de altura no total para elevar a superfície da plataforma.

(3) Não mais que cinco e não menos que dois auxiliares (anilheiros) devem estar na plataforma onde se encontra o banco de supino. Depois de se posicionar corretamente, o levantador pode solicitar a ajuda dos anilheiros na remoção da barra do suporte. A retirada, se assistida pelos auxiliares, deve ser efetuada com o comprimento dos braços (ou com os braços estendidos)

(4) O espaçamento dos braços não deve exceder 81cm (marcados na barra), medidos entre os dedos indicadores (ambos os indicadores devem estar na marca de 81cm e devem estar em contato com a barra, se a pegada máxima for utilizada). O uso da pegada reversa é proibida, ou seja, a mão do levantador deve “agarrar” a barra com o polegar.

(5) Depois de retirar a barra do suporte, com ou sem ajuda dos anilheiros, o levantador deve aguardar o sinal do árbitro central com os cotovelos travados. O sinal será dado assim que o levantador estiver imóvel e a barra posicionada corretamente. Por razões de segurança, será requerido ao levantador guardar a barra com um movimento do braço para trás se depois de 5 segundos ele não estiver na posição correta para iniciar o levantamento. 

(6) O sinal para iniciar a tentativa deve consistir em um movimento de braço para baixo juntamente com um comando audível.

(7) Depois de receber o sinal, o levantador desde a barra até o peito, retorna ao comprimento dos braços sem extensão desigual excessiva (movimento uniforme). Na extensão dos braços, um segundo sinal audível será dado para que se guarde a barra no suporte.

(8) Será desclassificado o levantador que descer ou guardar a barra antes do sinal do árbitro, elevar a cabeça, os ombros ou as nádegas do banco ou efetuar qualquer movimento com os pés. Qualquer extensão desigual dos braços também será motivo para desclassificação, assim como se o levantador não efetuar uma completa extensão dos braços, óbvio.

(9) Cada competidor tem 3 levantamentos (chances). Fica sendo válida a maior levantada, desde que se respeite os critérios acima.

O dia da competição – 27/11/2010
O horário de pesagem começou por volta das 10:00h da manhã. O que pude observar foi uma galera com mochilas, sacolas plásticas, garrafas. Todos estavam preparados para passar o dia ali e trouxeram os alimentos que estavam acostumados a comer : banana, arroz, lanches naturais ... alguns trouxeram seus hipercalóricos, maltodextrina, whey protein, etc, etc, etc. Na minha mochila, uma garrafa d´água, alguns comprimidos de chá verde, pó de guaraná, café solúvel e aspirina. Nada de comida. Estava no under (período de jejum da dieta do guerreiro) e iria permanecer nessa condição até as 18:00h. O campeonato começou por volta das 13:00h. Eu estava sem comida, sozinho, furioso ... enfim, eu estava em casa ...
Na hora da pesagem, a surpresa. Pesei exatos 119,5kg, apesar de estar me sentindo mais “magro”. Esse up no peso, me deu uma confiança extra.

Por falar em peso, as categorias de peso eram as seguintes :
Júnior (até 23 anos, 11 meses)
Até 80Kg
Acima de 80kg
Adulto - Feminina
Até 60kg
Acima de 60kg
Master Feminina (acima 40 anos)
Unificada
Master Masculina (acima 40 anos)
Até 70kg
Acima de 70kg
Adulto - Masculina
Até 55kg
Até 60kg
Até 67,5kg
Até 75kg
Até 82,5kg
Até 90kg
Até 100kg
Até 110kg
Acima de 110kg

O pessoal estava com suas camisas de força, munhequeiras, cintos e todos os acessórios possíveis e imagináveis. Era um campeonato grande aqui na região, conhecido mesmo, reunindo uma galera que realmente treina pesado. Não sei dizer o número exato de participantes, mas acho que algo em torno de uns 70 competidores. E eu estava raw, como dizem os norte-americanos, ou seja, sem acessório nenhum. Munido apenas da minha principal companheira, a dieta, e meu inseparável mp3.

Tinha tanta gente que o organizador decidiu fazer o campeonato em 2 rodadas. Dividir os competidores em 2 grandes grupos. E eu sabia que isso ia demorar. Sorte eu estar munido de meu mp3. A música que tocava no meu fone de ouvido era Powershifter do Fear Factory. Gravei somente ela e a ouvi exatas 16 vezes antes de me sentar pela primeira vez no banco de supino. Em um momento da letra, a frase “You want war, you got war” (“Você quer guerra, você tem guerra”) percorria meu corpo, no volume máximo, como se fosse um BASTA pra todo mundo que havia criticado a dieta, a minha atitude e minha vida. O trecho seguinte selava minha fúria e me conduzia a outro patamar “controlo meu destino ... forçando a mudança ... ficando livre ... mudando meu mundo para poder viver ... Vou te expôr e forçar sua morte ... Para assumir o controle do que é verdadeiramente meu

 
Um sentimento de conforto tomou conta de mim quando me deitei no banco para a primeira tentativa. Foi como se o mundo tivesse parado naquele instante. Respirei fundo. Lembrei do dia que iniciei a dieta, do período difícil de adaptação, da fome. Lembrei da galera que me chamada de gordo há alguns meses atrás. Lembrei do povo todo que me criticou por eu querer documentar minha dieta e meus treinos. Lembrei, também, de todos que me apoiaram e me deram palavras de incentivo. Podia jurar que, em algum lugar da multidão, vi minha falecida avozinha (que tanto me incentivou quando estava viva) acenando com a cabeça e murmurando algo do tipo “É a sua vez de mostrar pra todo mundo como os campeões se comportam. Não os campeões dos campeonatos mas os campeões da vida”. Mais uma vez, tudo aquilo que eu acreditava estava sendo observado e julgado por todos. O primeiro levantamento válido, e com uma carga não tão alta, me deu confiança para tentar me superar na puxada seguinte.

Alguns minutos depois e lá estava eu, de novo, pronto para empurrar o peso novamente. Como minha categoria de peso era a última, não havia mais tanto tempo para descansar. E foi nessa mistura de sentimentos à flor da pele, nesse clima de fúria, frustração e satisfação que me sentei no banco de supino pela segunda vez pra fechar qualquer possibilidade de derrota ... não no campeonato ... mas pra mim mesmo.

A dieta do guerreiro finalmente me deu o retorno que eu queria. A explosão de adrenalina e raiva jogou o peso na barra do supino pra cima como se fosse feito de papel ... eu havia chegado no limiar entre a dor e o prazer. Deitado, com a barra acima da minha cabeça, eu podia tocar os céus com meus dedos. Toda a dedicação, a disciplina e a privação finalmente mostravam a sua face. E era a face que eu queria tanto ver ... era a MINHA FACE REFLETIDA NO PODIUM DA VITÓRIA ... a vitória que eu esperei a vida toda ... 

Quando levantei a cabeça e me sentei no banco, fechei meus olhos e esperei. Um silêncio mortal se fez presente. Tudo me pareceu acontecer em câmera lenta. Abri meus olhos e vi os olhares de pessoas que não conhecia. Uns assustados, outros com olhar de admiração. Então, ouvi a frase que todos queriam ouvir naquele dia – “Movimento válido” – seguida de aplausos que ecoaram, tanto no local do campeonato quanto em minha alma. Não realizei a terceira tentativa. A carga da segunda tentativa me garantia, já, o privilégio de não ter mais adversário naquele dia. Foi o “shut up” que eu tanto precisava gritar ...

O over estava chegando e minha fome já dava sinais de rebeldia. Pronto pra ir embora, estava feliz e satisfeito. Meu ombro machucado do teste de supino que havia feito dias antes da competição começava a doer.
Ah ! Vocês querem saber o resultado ? Na verdade, o resultado foi a conseqüência do trabalho sério, da dedicação, da vontade de vencer, de provar que também sou capaz. Quem me viu subindo no pódium pra segurar o troféu de primeiro lugar, não sabe o que passei, o que tive que enfrentar e o que ainda enfrentarei. O dia do campeonato acabou ... a guerra ainda não ...

Pra onde mais a dieta pode me levar ? O que o futuro me reserva ? Qual será o próximo passo ? Acompanhem o tio Betão nessa árdua caminhada.
"Melhor viver um dia de leão, do que cem anos de cordeiro"



Stay strong !

5 comentários:

  1. Valeu Betão!! Vou ir juntando todos os posts aqui pra poder ter informação suficiente para fazer igual.

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  2. Porra cara.. agora que eu terminei de ler o post... do caralho, parabéns mesmo... eu sei como é uma merda receber critica de todo mundo... tu virou uma puta inspiração cara... um dia eu chego lá.

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  3. Pow, Filipe, valeu pelas palavras ... a guerra ainda não acabou ... tamo junto !

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  4. Parabéns Tio Betão sou um seguidor das suas sabias palavras...

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  5. Ae tio betao né assim que a galeraalhe chama? Bem muito obrigadoo voh participar de um em dezembro, e o caraa que é atual campeao fica direto me zuando dizendo que num vooh ganhaar delee nem ninguem vaai e. Agoraa vooh botaar pra mataar meeu Vey. Muito Obrigadoo pelo Incentivoo

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