quarta-feira, 11 de maio de 2011

Puxão de Orelha III

Com certeza, você já ouviu falar ou, até mesmo, já se deparou com a situação-tema do tópico : o professor falastrão, picareta, que não sabe sequer do que está falando mas que fala com a maior propriedade no assunto, como se fosse o embaixador brasileiro da boa forma ! Todos os anos, inúmeros cursos de Educação Física formam indivíduos que amam a musculação e que irão se aperfeiçoar no assunto, fazendo cursos, assistindo palestras, comprando livros e revistas especializadas (Não, a Boa Forma não serve), etc, etc.
Mas também existem aqueles malas que farão o curso porque acham que está na moda, que o curso é fácil (deixa eles terem que explicar o ciclo de Krebs em uma aula de Fisiologia e verão o que é bom pra tosse), que o curso é legal porque está cheio de mulheres ou que ganharão fortunas dando aula de personal pra personalidades. E são essas criaturas que estão lotando as academias, querendo ensinar suas teorias furadas, complicando a vida de quem está iniciando sua vida na musculação e causando indignação nos marombeiros mais antigos.
Há alguns meses atrás, um desses entendidos veio entregar um curriculum vitae pra mim, pessoalmente. Infelizmente, não costumo aceitar para não criar uma expectativa na pessoa, pois sei o quanto é ruim ficar esperando por uma chance que não aparece. Também infelizmente, sei que se alguém chega com o tal curriculum aqui é cara que acabou de se formar na faculdade, está mais interessado em futebol que na musculação e que, dificilmente, estará pronto para fazer parte da filosofia que prego. Preconceito ? Não. Realidade. E é assim que funciona aqui. Geralmente, o curriculum está recheado de cursos de escolinha de futebol, aulões em parques livres, explicando que o cara surfa (é, amigos, vocês acham que a vida é fácil) e outras coisas bizarras e tudo a ver com a musculação como curso de relaxamento facial e origami (esse eu fiz questão de guardar porque só de contar ninguém acredita).
Mas voltando ao “candidato” a professor de musculação. O cara entrou na academia e fui prontamente atendê-lo. Estava com um envelope marrom tamanho A4 nas mãos e logo me dei conta que seria mais um pretendente a uma vaga de professor, que não existia, pois não fiz anúncio algum. Ele me olhou assustado e disse que queria falar com o responsável pelas contratações e pelo quadro técnico. Uau ! Já fui chamado de professor, instrutor e até de mestre (quem me dera ter feito mestrado) e agora ganhei mais esse título. Respondi que ele poderia falar comigo mesmo.
Talvez por eu estar no meio do treino, suor escorrendo pelo óculos, expressão de dor e com uma camiseta com alguns furos a mais, ele não tenha acreditado de início que poderia falar comigo. Olhou ao redor e perguntou se poderia deixar suas qualificações. Qualificações ??? O papo estava ficando bom. Para quebrar a regra, menti e disse que estava precisando de professor mesmo mas que teria que ser um cara bom. O pretendente arregalou os olhos, encheu seu pulmãozinho de ar e soltou a pérola :”Melhor que eu não há. Tenho inúmeros cursos com profissionais renomados na área, além de ter me formado em uma das melhores faculdades do estado”. Nesse momento, meu aparelho auditivo entrou em pane, talvez como medida de sobrevivência (pra ele, claro) e eu não consegui escutar mais nada, só via os lábios do cidadão se movendo, abrindo e fechando em um ritmo frenético.
Blá, blá, blá, blá .....
Fiquei nesse estado de dormência enquanto ele relatava sua história. Até que, finalmente, os sons foram voltando aos poucos e pude escutar o rapaz emitindo um “senhor ? .... senhor ?”. Então, voltei à realidade, com minha paciência quase que intacta para que eu pudesse dar o segundo passo da empreitada humorística que estaria por vir : a entrevista. 
Como eu não tinha ouvido nada do que ele falou, disse que precisaria entrevistá-lo para realmente saber seus conhecimentos na área. O rapaz logo se prontificou a fazer a entrevista. Para tanto, puxou uma agenda e me perguntou quando seria com a caneta na mão para marcar a data. O garoto queria marcar a entrevista para outro dia, outro horário. Respondi que seria feito ali mesmo, naquela hora, em pé, no meio da sala de musculação, no ambiente natural “dele”. Ele engoliu seco mas logo começou a mostrar sinais de prepotência e aceitou, dizendo que estava sempre preparado e que iria me surpreender. Disso eu não tive dúvidas. Segue diálogo fiel aos acontecimentos do dia, ao som de Breaking Benjamin, Blow Me Away :
Betão : Porque você quer ensinar musculação ?
Candidato : Porque posso passar meus conhecimentos pra esse pessoal que está treinando errado hoje em dia. Você entra na sala de musculação e já percebe como os professores estão despreparados. Sem querer ofender mas olha só aquele cara ali no canto. Está fazendo a remada totalmente errada, ele fica batendo a barra no chão e depois fica ereto, na vertical. Pode se lesionar desse jeito.
(Nota 1 : o aluno estava fazendo levantamento terra)
Betão : Você conhece um exercício chamado levantamento terra ?
Candidato : Claro que conheço. Conheço todos os exercícios que o senhor imaginar e até já criei alguns. O levantamento terra é um exercício perigosíssimo e devia ser banido das academias. Ainda bem que aqui não tem ninguém fazendo. Ponto pro senhor. E voltando para a questão dos exercícios errados, o senhor vai me desculpar mais uma vez, mas já estou vendo outra gafe aqui na academia. Aquele rapaz de vermelho está fazendo o agachamento errado. Está descendo demais, quase encostando o glúteo no chão. Aconselho o senhor a se atualizar nos métodos de execução dos exercícios, pois se um aluno se lesionar ele pode até te processar.
Betão : Obrigado pelo conselho. Vamos continuar a entrevista. Imagine a seguinte situação : sou um aluno e lhe peço uma série para definir. Como você me responderia ?
Candidato : Essa é fácil. Eu diria pra você fazer 4 séries de 15 repetições ou mais.
Betão : E se eu quisesse ganhar força ?
Candidato : Tem que melhorar as perguntas da seleção, hein ! Essa todo mundo sabe também : 4 séries de 6 repetições. E já vou lhe adiantando, se quiser hipertrofiar é só fazer 4 séries de 8. Não tem erro.
Betão : E se eu fizer 4 séries de 7 repetições, nem 6 nem 8, vou ganhar força ou massa ?
Candidato : Finalmente uma pergunta que me fez pensar. Vai ganhar os dois, porque está na fase de transição entre força e massa. Certo ?
Betão : Er ... depois a gente contabiliza os pontos. O que eu poderia fazer para definir o abdômen ?
Candidato : Ué ... abdominais ... eheh ... pegadinha, né ? (E me dá uma batidinha com o cotovelo)
Betão : É, malandro, você, hein ... tentei te enganar mas você, esperto, logo percebeu ... E o pullover, é um exercício pro peito, para os dorsais, para os dois, o que você acha ?
Candidato : Sem sombra de dúvida para o peito.
Betão : E porque você afirma assim com tanta segurança ?
Candidato : O próprio nome já diz tudo. Pullover. Aquela vestimenta, sabe ? Ela cobre o quê quando você veste ? O peito. Tai. Pullover. (Nota 2 : Essa, pra mim, foi nova)
Betão : Vamos nos aprofundar um pouco mais, seu jument.... digo, amigo. Cite algum dos princípios Weider.
Candidato : Puxa. Eu sabia que deveria ter estudado um pouco mais mesmo. Mas nunca achei que me perguntariam isso, afinal está em desuso nas academias de hoje. Os métodos dele estão ultrapassados. Hoje em dia treinamos como já expliquei agora há pouco, com séries de força, hipertrofia e séries para definição.
Betão : Então, o que é uma super-série ?
Candidato : Bom, por dedução e lógica eu diria que é uma série grande, demorada. Exaustiva, até, eu diria.
Betão : E uma série combinada ? 
Candidato : Fácil. Muitas vezes temos que realizar uma série combinada, geralmente quando já treinamos há anos e a motivação acabou. Como o próprio nome sugere, é quando você combina o treinamento com um parceiro e treinam o mesmo grupo muscular.
Betão (começando a ter dores de cabeça, náusea e enjôo) : O que você sabe sobre o Heavy Duty ... criador, métodos, etc ?
Candidato : Não sei nada.
Betão : Mesmo ??? Então admite que não conhece ????
Candidato : Admito. Porque não fiz muitos cursos na área de fitness e wellness. Meu forte é a musculação pesada e hardcore. È onde me identifico mais.
Betão : Ok. Vamos fazer algo diferente agora, como naqueles programas de entrevistas, eu digo uma palavra ou frase e você responde com outra, jogo rápido.
Candidato : Tipo bate e volta ... ping-pong, né ? Cuidado que eu posso rebater rápido demais ... eheh ... (e bate de novo com o cotovelo em mim).
Betão : (mudo)
Candidato : ?
Betão : (mudo)
Candidato : E ?
Betão : Ah, é ! Vamos lá, então .... Aeróbio em jejum !
Candidato : Não !
Betão : Não, o quê ???
Candidato : Não faço !
Betão : Sua ant... ops ! Quero dizer, você não precisa falar se faz, se gosta ... diga um sinônimo, algo que te lembre a palavra, ou a primeira coisa que lhe vier à cabeça, mas evite “sim”, “não”, essas coisas ... Bom, de novo : BCAA !
Candidato : Definição
Betão : Winstrol
Candidato : Definição
Betão : Um exercício para fortalecimento do manguito.
Candidato : Fisioterapia.
Betão (engolindo seco) : Cara, acho que podemos acabar a entrevista por aqui. Já deu pra ter uma idéia da sua formação, do seu conhecimento e do que você pode fazer por seus alunos. Como ainda vou entrevistar mais candidatos, ligo pra você se a vaga for sua.
Candidato : Mas eu ainda nem falei sobre os exercícios que criei.
Betão : Acho que eu não agüentaria isso, quer dizer, não tenho mais tempo hoje. Ainda preciso acabar de treinar e preparar alguns treinos do pessoal que vem à noite.
E ele ficou irritadiço. Perguntou se eu não poderia lhe adiantar minha visão à seu respeito. Não estou aqui pra julgar nem ser julgado, mas nessa hora não me contive e lhe expliquei que ele estava completamente equivocado sobre seus conceitos na musculação. Não sabia a teoria nem a prática do que estava se propondo a trabalhar, podendo, inclusive, se prejudicar e prejudicar outra pessoa. Ofereci-me para que ele viesse à academia, sem remuneração, para aprender um pouco do que eu sabia, pois achei engraçado demais as respostas ... mas depois fiquei preocupado. Fiquei desconcertado ao perceber como um profissional desses poderia contribuir para difundir conceitos errados sobre a musculação, que já é tão mal vista hoje em dia. Mais um professor cheio de erros crassos, sem fundamento, que iria prejudicar tantas pessoas.
Ele disse que pensaria na minha oferta, com ar de arrogância, e foi embora. Amigos, vejam a situação em que muitas vezes podemos nos encontrar : entrar em uma academia, cheios de expectativas de mudar o corpo e um jeca desse vira seu professor. Mas é muito fácil reconhecer esses picaretas em poucos passos (ou perguntas) :
- Peça uma série para definir, perder gordura. Se o cara disser que só se baixa o percentual de gordura com dieta, ótimo. Se vier com altas repetições, tipo 4x15 ou 4x20, caia fora.
- Diga que você quer “trincar” o abdômen. Se ele te responder que o que “trinca” é vidro e que você só verá os gomos do seu pânceps com dieta, ótimo. Se ele te passar uma série de abdominal milagrosa, caia fora.
- Se o cara começar a te falar que fez cursos e cursos, que treinou na academia do Schwarzenegger, que foi no enterro do Mentzer e vomitar um monte de diplomas em cima de você, caia fora. Musculação é teoria e prática, simples assim. E não uma novela mexicana.
- Diga que ouviu dizer que winstrol (stanozolol) define e queria saber se é verdade. Se ele responder que sim, caia fora, mas muito fora. 
- Saiba escolher seu tutor. Não vamos generalizar mas se você quer ficar grande, escolha o maior professor da academia para pedir conselhos. Há muito mais chances de você obter sucesso, pois o cara já passou por isso e sabe o duro caminho das pedras. Com suas devidas exceções, caras grandes ensinam como ficar grande.
Queridos amigos, fiquem atentos com os professores picaretas. Cobrem resultados, perguntem, conversem. O verdadeiro professor de musculação ensina por amor, gosta do que faz e vai te levar pra um patamar mais alto do que aquele que você estava quando entrou na academia. Saiba diferenciar um falastrão de um cara com conhecimento. Assim, todos ficarão felizes : o professor por poder ensinar e o aluno por poder aprender. Afinal, essa é a essência da relação que existe entre os dois.

3 comentários:

  1. eita cara, acho que eu saberia responder melhor que esse cara aí kkkkkkkkkkkkk
    o professor daki eh campeão de jiu-jitsu, ele deixa qualquer um tomando conta da academia, tudo que eu faço eh por mim mesma, pesquiso muito na net... eu perguntei o dono da academia o que era platô, não soube responder rsrs..
    adorei tudo o que escreveu!! valeu por compartilhar!

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  2. Betão vai parecer brincadeira mais tudo o que escreveu reflete inteiramente meu (instrutor) pois não sabe nada ele nem treinar treina só atrapalha quem quer treinar pois fala de computador e os cambal com os granguinhos nerd amigos dele ,reclama da serie que eu mesmo monto pois ele não tem competência para montar uma serie pra mim .
    Betão vou falar o que ele me falou na primeira semana por favor acredite é verdade.
    Fui fazer supino serie 4x8 na ultima coloquei 40kg em cada lado fiz oito repetições mais como estava um tempo sem treinar pedi ajuda nas ultimas mais lembrando batendo no peito e subindo sem ajuda de ninguem só na ultima que pedi pra ele me auxiliar e fez primeiro quando desci ele me coloca a mão bem no meio da barra pra segurar quase fico sem ar pois esmaguei a mão do infeliz no peito .
    Acabei ai ele me vira e diz que estava fazendo errado pois supino desce apenas 90° graus e não até o peito por isso não conseguia e completar o treino sem sua "Exuberante" ajuda. "Eu precisava perder panceps " ele me fala que teria que fazer no MÍNIMO Série de 20 repetições pois daquele jeito eu não conseguiria nunca.
    E que eu teria que tomar Hyalozyma 2000.
    Acredita Betão pq sinceramente até hj eu ainda não consigo acreditar nas atrocidades que ele passa para os alunos novos e os erros absurdos que ele julga estar certos .
    Me desculpa de verdade pelo tamanho do post mais quando li isso não contive e tive que por pra fora abraços Betão Parabéns Ótimos Post´s.

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  3. Me mijei de rir nessa parte, cheguei a chorar: Nesse momento, meu aparelho auditivo entrou em pane, talvez como medida de sobrevivência (pra ele, claro) e eu não consegui escutar mais nada, só via os lábios do cidadão se movendo, abrindo e fechando em um ritmo frenético.

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