sexta-feira, 7 de abril de 2017

Posso fazer um treino funcional na sala de musculação?




Hoje em dia, o termo ‘funcional” ficou em evidência. Mas nem sempre foi assim: antes, era somente utilizado na área de reabilitação, por especialistas ou entusiastas da área. Hoje em dia, a palavra “funcional” acabou caindo no gosto das pessoas, das academias (e mais ainda dos donos das mesmas) e na mídia. E não poderia ser diferente, tudo o que é novo ou remete à novidade desperta uma grande curiosidade (ainda que não seja novidade nenhuma, pois o treino funcional foi criado antes da década de 50).

O que devemos ter em mente é que nenhuma atividade física é completa por si só e o ideal é sempre associarmos com outra modalidade esportiva, seja recreacional ou não. Dessa forma, afirmo que o treinamento funcional deve ser somada ás demais, preenchendo, então, uma possível lacuna, possibilitando um desenvolvimento corporal completo, homogêneo e mais harmonioso.

Mas o que é o treino funcional? Ele é caracterizado pela semelhança do exercício/trabalho às situações cotidianas, baseando-se, então, no princípio da especificidade. O que quero dizer é que as situações cotidianas podem, muitas vezes, precisar de movimentos e gesto motores que exigem o trabalho de diversos grupos musculares ao mesmo tempo. Sendo assim, a proposta de exercícios funcionais é, justamente, promover ações musculares simultâneas (conjuntas), proporcionando um trabalho corporal globalizado.

Para esse fim, o uso da instabilidade se mostra como uma ferramenta muito útil e indispensável para essa finalidade, tendo em vista que a instabilidade está presente em várias situações do dia-a-dia. Confirmando essa ideia inicial, existem diversos estudos que analisam os possíveis efeitos benéficos dos exercícios com base instável.

Esses estudos, normalmente, apresentam a instabilidade em duas formas distintas: a instabilidade local, que é a localizada sobre uma ou algumas articulações específicas; e a instabilidade global (ou de corpo todo), localizada sob a base de apoio do corpo.

A maioria desses estudos associa o emprego da instabilidade com boas adaptações coordenativas, melhora da propriocepção (também denominada como cinestesia, é o termo utilizado para nomear a capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais, sem utilizar a visão) e manutenção do equilíbrio. Esses benefícios já servem para justificar sua aplicação a qualquer tipo de público, como para idosos e atletas.

Além desses efeitos positivos, os maiores benefícios do treinamento funcional estão relacionados ao trabalho de musculatura profunda do core, sendo que a instabilidade é um dos principais instrumentos para a ativação dessa musculatura. Entendamos que, por músculos do core, são os localizados no centro do corpo, compreendendo a região lombar, abdominal e pélvica ou, como alguns preferem, a “musculatura postural”. O fortalecimento dessas estruturas é de fundamental importância para a saúde da coluna vertebral, além da saúde de um modo geral.


Agora que passamos pela fundamentação teórica, podemos concluir que o treinamento funcional pode ser aplicado e qualquer ambiente de treinamento, inclusive na sala de musculação. Mas para que isso aconteça, alguns princípios devem ser respeitados: trabalho do corpo todo (globalizado); desenvolvimento de todos os componentes da aptidão física (força, agilidade, equilíbrio, flexibilidade, aptidão cardiorrespiratória); semelhança dos exercícios às ações cotidianas e/ou esportivas; desenvolvimento da musculatura do core.

A sala de musculação possui infraestrutura suficiente para permitir a aplicação de programas de exercícios que contemplem todos os citados acima. Para que isso aconteça é imprescindível um conhecimento técnico apurado por parte dos profissionais envolvidos.

O termo musculação funcional foi proposto para esses casos e tem, como ideia principal, a aplicação do treinamento funcional no ambiente da musculação. Mas em resumo, o treinamento funcional consiste na reprodução normal de ações realizadas nos esportes e no cotidiano, não tendo como alvo um grupo muscular específico, mas um “movimento” específico.

Uma coisa que me preocupa muito são essas aulas implantadas nas academias, ditas funcionais com exercícios que não possuem semelhança ás ações cotidianas e acabam por parecer um circo de horrores, sem função ou sentido algum. Porque razão um professor colocaria uma senhora, mãe de 3 filhos, dona-de-casa, com seus 45 anos pra realizar movimentos na corda naval? Certamente não há nenhuma semelhança desse exercício com nenhuma atividade cotidiana da senhora em questão. Se o treinamento é dito funcional, ele deve funcionar pra algo, específico, pra alguma pessoa em determinado momento. Nesse caso, vejo como plausível, exercícios como agachamentos, por exemplo, que remetem à diversas atividades realizadas em casa.

Outro caso que posso citar como possíveis exercícios, são agachamentos laterais para jogadores de tênis, que recrutam os adutores e simulam muitas situações reais em campo, assim como arremessos para jogadores de rugby e/ou futebol americano.

Enfim, onde quero chegar, é que é treinamento funcional deve ser algo feito com critério, com objetivo e não apenas mais um “aulão”, onde se colocam pessoas com objetivos diferentes em um mesmo modelo de aula. Isso é ofensivo.
Muitas vezes, nessa ânsia de atender a demanda do público por algo novo,  deixa-se de lado o conceito e a essência de algo simples e que pode trazer graves consequências à saúde. 

Stay Strong!

Betão

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