segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Cifose e musculação : o que fazer ?



Não é raro ver, na sala de musculação, o professor que não tem noção de como se comportar diante de alguns fatos. Quando o aluno chega com alguma particularidade, esse mesmo professor pode reagir de duas formas : entrar em pânico por não saber como prescrever os exercícios ou simplesmente não dar a mínima. Em ambos os casos, o resultado pode ser catastrófico. Então, dessa vez, vamos entender o que é cifose.
Introdução
Entre as deformidades mais negligenciadas no tratamento da coluna estão as cifoses, também chamadas de dorso curvo ou giba.

As pessoas que, com mais freqüência, têm essa deformidade são as mulheres idosas, cujas vértebras, devido a uma rarefação óssea (osteoporose), ficam fracas e em forma de cunha (vide figura) ou se fraturam. Os jovens também têm deformidade causada por um acunhamento dessas vértebras; é a cifose juvenil de Scheuermann, descrita em 1920 por esse médico. Mas, na maioria das vezes, esse acunhamento das vértebras não existe apesar de o jovem abusar de uma posição viciosa: o dorso curvo postural.
Dorso Curvo Postural
O tipo mais comum de cifose é a postural, conhecida também pela denominação de "dorso curvo postural" (Fig. 1). 

Fig.1. Dorso curvo postural. Note a acentuação da lordose.

Na verdade, não é uma alteração definitiva da coluna; a posição em que o adolescente desempenha as suas atividades rotineiras é que pode causar essa curvatura. As meninas, na tentativa de esconder os seios, principalmente se forem grandes para a idade, curvam os ombros para a frente. Nos meninos, a condição é freqüente naqueles que são mais altos e sentem-se inibidos. Nesses casos, é necessária uma conversa franca com o adolescente; explicar-lhe os problemas posturais, como sentar, deitar-se, além de um programa de exercícios. Em raros casos, quando a curvatura é muito pronunciada, usa-se o colete de Milwaukee. Nos casos mais simples, pode-se usar a espadalheira ou "posture-aid", ou colete de Regis Spala, que são vendidos nas casas de material esportivo, nas grandes cidades brasileiras.
No adulto, o dorso curvo postural pode ser decorrente de uma atitude profissional no desempenho de um trabalho. Essa atitude viciosa pode, com o decorrer dos anos, causar alteração na estrutura de vértebra e transformar essa cifose postural em deformidade (Fig. 1).
Cifose Juvenil de Scheüermann
Definição
É uma cifose do jovem que, além de fixa, tem um quadro radiológico típico em 3 a 5 vértebras, constituído em acunhamento anterior de pelo menos 5 graus ou mais de cada vértebra. Foi descrita em 1920. Também é chamada de osteocondrose espinhal.

Causa
1 - O próprio Scheüermann aventou a hipótese de se tratar de uma necrose vascular do anel cartilaginoso da vértebra. Seria, pois, um problema de circulação óssea, mas estudos microscópicos não confirmam essa teoria.
2 - A teoria de que forças mecânicas poderiam causar a doença não se confirmou quando se comparou a incidência de doença em jovens que trabalhavam levantando peso com outros que só estudavam.
3 - Sugeriu-se a hipótese de que a doença seria uma espécie de osteoporose, ao constatar-se em vários pacientes uma deficiência de cálcio.
Incidência
É difícil determinar a incidência, mas se avalia entre 0,5 e 8% da população geral, pois as alterações radiológicas só aparecem depois dos 11 anos. Há equivalência entre os sexos, com ligeiro predomínio no sexo feminino.

Quadro Clínico
O paciente típico é o que, entre 13 e 17 anos, se queixa de fadiga, tem má postura corporal e tem dores no ápice da coluna. A dor está ausente em 40 a 80% dos casos, sendo o problema postural que leva os familiares ao consultório médico. A cifose é puramente torácica em 75% dos casos e em 25% é toracolombar. A lordose é cervical e lombar, proeminência da barriga quase sempre acompanha o quadro. Em 20 a 40% dos casos, há uma escoliose associada. Raramente há alterações musculares, articulares ou neurológicas.

Quadro Radiológico
O fato que chama mais atenção é a cifose na radiografia de perfil, que pode ser medida pela técnica de Cobb, para escoliose (Fig.2). Acima de 40 graus considera-se anormal. O detalhe seguinte é o acunhamento da vértebra, que deve atingir de 3 a 5 vértebras; depois se observam as irregularidades nos cantos anteriores, na parte correspondente do anel epifisário, que fica de forma e tamanho irregulares. Os espaços discais são ligeiramente diminuídos, mas nunca totalmente destruídos. O curso da doença é limitante por si só, sendo que a fase ativa dura cerca de dois anos. Na vida adulta desses pacientes podem-se constatar alterações artrósicas mais acentuadas, havendo predisposição a dores de maior intensidade, com a limitação da capacidade para trabalhos pesados e para o esporte. 
Fig.2.Esquema das alterações radiológicas típicas da cifose juvenil de Scheuermann.

Tratamento Médico
Os exercícios devem ser feitos para reduzir a lordose pélvica e forçar os braços para trás, a fim de diminuir a cifose torácica. 
Fig.3. Uso do colete de Milwaukee no tratamento conservador da cifose juvenil.

Deve-se evitar a realização de sobrecargas de esforço sobre as placas epifisiárias. Em muitos casos, há necessidade de se empregar o colete de Milwaukee, agora com almofadas apertando de trás para a frente e não de lado (Fig.3). Em 223 casos tratados, obteve-se uma melhora em 40% dos pacientes que usaram o método durante seis meses a um ano. O colete não atua quando uma vértebra está mais de 10 graus inclinada em relação a outra ou a curva é maior que 65 graus. Em raros casos, torna-se obrigatória a correção cirúrgica com o instrumental de Harrington ou fusão vertebral. A cirurgia é imperativa nas cifoses angulares por acidente ou tumor.

Em 203 pacientes, com doença de Scheüermann, com uma média de curva de 62 graus Cobb, portanto, curvas mais graves, estas foram reduzidas para 41 graus após 18 meses de uso do colete de Milwaukee. Quando o jovem ficou 18 meses sem usar o colete, a perda da correção já obtida foi de 15 graus Cobb. O acunhamento das vértebras foi reduzido de 7,9 para 6,8 graus com o uso do colete, mas, para se conseguir uma cura total, recomenda-se fazer esse acunhamento chegar a 5 graus, o que será possível com o uso do colete por 23 horas por dia, durante 18 a 36 meses. Mesmo em curvas de 75 graus Cobb, o uso do colete resultou em boa redução.

Cirurgia
O acompanhamento de 27 pacientes com cifose de Scheúermann operados, pois tinham curvas de 72 graus Cobb e dores, durou 27,6 meses após a cirurgia e verificou-se que o grau médio das curvas desceu para 46,1 graus Cobb, não havendo perda na correção maior do que 5,7 graus Cobb, desde o exame no pós-operatório imediato e no acompanhamento posterior de 2 anos. A operação foi realizada usando a fusão posterior e o instrumental de Harrington. O grau de acunhamento das vértebras caiu de 13,5 graus para 9,1 graus. A lordose desses pacientes, antes da operação, tinha uma média de 84 graus e no pós-operatório foi para 73 graus. Nove pacientes continuaram a se queixar de dores difusas nas costas após a cirurgia.
No tratamento das deformidades rígidas é necessária uma atuação mais agressiva. Para tanto, praticam-se correções em mesa ortopédica apropriada e usa-se o colete gessado durante 3 a 4 meses, para, em seguida, empregar-se o colete de Milwaukee. Deve-se fazer o controle radiológico do acunhamento das vértebras e da correção da curva.
Cifose do Adulto
No adulto, o tratamento do dorso curvo deformado é sempre cirúrgico e a indicação é feita por três razões:
1) funcional (quando existir déficit respiratório);
2) estética (quando a deformidade for inaceitável pelo paciente);
3) dolorosa. Raros são os casos em que a indicação cirúrgica é feita por motivos respiratórios, pois o aumento da cifose torácica não costuma interferir mecanicamente na respiração (não existe a diminuição do espaço útil oferecido à expansão pulmonar). Quando a indicação é a dor, o tratamento pode dispensar a correção da deformidade. Nesses casos, ele se baseia na artrodese posterior. Entretanto, quando se deseja atender ao aspecto estético, deve-se corrigir a deformidade e fazer a operação via anterior e depois via posterior (em 2- tempo), realizada pela frente da coluna e por trás. O prazo de imobilização gessada ambulatória pós-operatória é de 10 meses.

A dupla fusão anterior e posterior começou a ser feita em 1973, pois verificaram os autores que, quando só era feita a fusão posterior e o emprego do instrumental de Harrington, havia uma grande perda da correção e grande incidência de casos em que o enxerto ósseo não pegava. Por essas razões, passaram a fazer dupla fusão. Numa revisão de 24 casos de pacientes adultos com cifose acentuada, as queixas principais pré-operatórias eram dores na região torácica e lombar. A média da curvatura era de 77 graus (variação de 54 a 110 graus), e no pós-operatório, a média ficou em 44 graus (variação de 27 a 51 graus Cobb). Todos ficaram assintomáticos, após a operação. Desses 24 casos, 15 também tinham escoliose cuja curva não era maior do que 30 graus Cobb. A média de imobilização foi de 9 meses.
XIII. EXERCÍCIO PARA A CIFOSE

O exercício fundamental para a cifose chama-se exercício de extensão. E o exercício exatamente contrário à flexão da coluna. Teoricamente o exercício de extensão deverá ser feito com os músculos que ficam na frente do corpo, mas pode também ser executado pelos músculos das costas, da parte posterior do corpo.
E evidente que não são os mesmos músculos que realizam esses dois movimentos antagónicos:
1) fletir o corpo, dobrá-lo para a frente (Fig.4), o que piora a cifose e 2) distender o corpo, dobrá-lo para trás (Fig.5). Entretanto, eles ficam nas costas, na região posterior, uns mais profundos outros mais superficiais. Quando se fazem os exercícios peitorais (vistos no capítulo anterior) também já se está indiretamente combatendo a cifose.
Exercício de Extensão da Coluna
1. A extensão da coluna é limitada pelos seus encaixes ósseos. A extensão da coluna é muito pequena. Mas isso não deve impedir que se tente forçar esses músculos ao máximo e com alguns artifícios. 

2. Extensão da coluna se consegue com uma posição ativa de execução: na posição de pé, tente encostar as mãos no calcanhar (na altura que der, é lógico). Existem pessoas com hipermobilidade articular ou hiperlassidão das juntas que conseguem fazer isso facilmente. Felizmente, não é necessária toda essa flexibilidade para exercitar a extensão da coluna. 

3. Faça a extensão de coluna, lendo deitado como mostra a figura, pois assim você estará usando durante um tempo muito longo os músculos que forçam a coluna cifótica a endireitar-se. 

4. A natação de costas é um outro expediente que permite a extensão da coluna e combate a cifose. 

5. Pode-se fazer o exercício de extensão deitado em cima de uma bola dura ("medicine ball") ou saco de areia que força a coluna a se endireitar. Pela teoria dos dois apoios e da força (a do prego) e do esforço constante, nessa posição você está realmente aplicando uma força precisa, na coluna óssea, capaz de endireitá-la. Este exercício não exige muita força, ao contrário, ajuda a relaxar, soltar o corpo.
Imagine um prego com uma dobra, ou amassado (corresponde a sua "corcunda", sua cifose), e que pudéssemos pegar um martelo e ficar batendo ali, até endireitá-lo. É isso que você deve fazer, quanto à coluna: deixar solto o restante dos músculos que seguram essa dobra do "prego" e permitir que a bola ou saco de areia apertem essa giba. Faça relaxamento, feche os olhos, pense numa paisagem gostosa: o mar, um céu azul. Force, de vez em quando, as costas contra a bola. 

6. Esse exercício pode ser realizado de pé, apertando a coluna contra uma quina de porta, com ou sem a bola e aproveitando para fazer exercícios para os peitorais (veja capítulo anterior). Isso pode ser feito várias vezes por dia, durante 10 a 15 minutos por dia. Lembre-se: a coluna óssea, na sua idade (até 18 anos), é mole como a arcada dos dentes e pode ceder na sua curva inadequada. 

7. Esse exercício de extensão pode ser feito de outra maneira, forçando contra um elástico ou um peso amarrado nas costas, numa mesa em casa ou na academia, como mostra a Fig.6. Ele cansa mais, e já serve para fazer um pouco de exercícios para o fôlego (exercícios aerobicos). 

8. Para dar mais eficiência aos exercícios de extensão, procure sempre que possível encostar a coluna embaixo, ou na parede ou no chão. Isto é, quando você fizer exercícios para a cifose, não procure aumentar a lordose. Você já viu que essas duas curvas, a cifose e a lordose, são complementares: uma contribui para a melhora ou piora da outra. Se tiver dúvidas, leia o capítulo sobre anatomia. Procure junto com o exercício para a cifose também aprender o exercício que combate a lordose, que é a báscula de bacia, que veremos adiante. Veja, no capítulo anterior, a maneira correta e incorreta de fazer esses exercícios na parede. 

9. Uma boa atitude que você pode tomar é assistir à TV com um cabo de vassoura apoiado nas costas, e com as mãos levantadas, para ficar numa postura correta para cifose até melhorar os peitorais. Quando você cansar os braços, deixe-os soltos, mas permaneça com o cabo de vassoura no lugar, pois isso cria um bom reflexo de postura adequada. 

10. Já viu que o exercício de extensão da coluna é ajudado pelos exercícios dos peitorais; um está ligado no outro. O exercício de alongamento, que tenta melhorar a escoliose, também colabora com a melhora da cifose, o que mostra que esses exercícios (são só 6 tipos básicos) estão todos interligados. 

11. Procure quando estudar adotar a postura da Figura 7 e não a da Fig.8

Fig. 4. Fletir o corpo piora a cifose. Fig. 5. Estender o corpo é o exercício fundamental para a cifose. 

Fig. 6. Exercício de extensão com peso. 

Fig. 7. Boa posição para a leitura, para tratar a cifose. 

 Fig. 8. Má posição para a leitura para quem já tem cifose.

Stay strong !

Betão

Nenhum comentário:

Postar um comentário