domingo, 3 de agosto de 2014

Exercícios Aeróbios e Sistema Imunológico



O grau de influência do exercício sobre o sistema imunológico depende da intensidade, duração e freqüência com que o esforço é realizado. Nieman (1994) propôs que a relação entre intensidade e duração do exercício e a ocorrência de infecções do trato respiratório superior - como a gripe comum - e outras infecções, podia ser representada por uma curva em forma de "J" . Este modelo sugere que os riscos diminuem, uma vez que o indivíduo abandona o estilo de vida sedentário e passa a exercitar-se moderadamente, sendo possível, entretanto, que os maiores riscos ocorram durante períodos em que haja uma prática sistemática de exercícios de alta intensidade.

De fato, um número cada vez maior de estudos vem demonstrando que os exercícios de moderada intensidade influenciam positivamente o sistema imunológico. Tal influência parece dever-se principalmente a benefícios psicológicos, como a diminuição dos níveis de estresse provocados por situações corriqueiras do dia-a-dia (NIEMAN, 1994; LAPER-RIERE et al., 1994, SHEPHARD & SHEK, 1994, LIRA, 1996). O exercício aeróbio promove uma bradicardia, a qual está relacionada a um aumento da atividade vagal e, conseqüentemente, a uma diminuição na atividade do Sistema Nervoso Simpático. Este quadro resulta em uma redução dos níveis plasmáticos de hormônios intimamente ligados ao estado de estresse, como as catecolaminas e o cortisol, relacionando-se inversamente com a supressão imunológica
(LA PERRIERE et al, 1994).

Por outro lado, considerando-se a implicação aguda do exercício, em resposta a esforços que excedem a intensidade de 60% do VO2 máx, verifica-se que as concentrações sangüíneas de células do sistema imunológico mostram-se geralmente reduzidas a partir de trinta minutos do término do exercício, podendo continuar baixas (principalmente a concentração de linfócitos) por três a seis horas (NIEMAN & NEHLSEN-CANNARELLA, 1994; SHEPHARD & SHEK, 1994). O aumento considerável nos níveis sangüíneos de adrenalina e cortisol parece consistir na principal explicação para tal fenômeno (PEDERSEN et al., 1994; HOFFMAN-GOETZ & PEDERSEN, 1994; PEDERSEN & BRUUNSGARD, 1995).

Outro aspecto interessante é que exercícios muito intensos, principalmente os de longa duração, estão associados a lesões de fibras musculares e inflamação local, condições intimamente relacionadas à emigração das células imunes da corrente sangüínea para os tecidos lesionados (NIEMAN & NEHLSEN-CANNARELLA, 1994). A melhoria do estado de treinamento e, conseqüentemente, da capacidade de exercitar-se, depende, em grande escala, dessas respostas. Contudo, alguns autores como Sparling et al. (1993), Pedersen et al. (1994) e Brines et al. (1997) especulam que o referido movimento de células imunes para o restabelecimento da integridade das células lesionadas sujeita o organismo a uma fragilidade momentânea em relação a agentes externos, como bactérias e vírus.

Rohde et al. (1995) propõem que os linfócitos utilizam principalmente como substrato energético, a glicose e a glutamina, sendo estes nutrientes fundamentais para que estas células desempenhem adequadamente suas funções de defesa do organismo. A oferta de glutamina, por sua vez, é amplamente influenciada pelo tecido muscular, devido à sua capacidade de sintetizá-la e liberá-la em grande escala na corrente sangüínea (HOFFMAN-GOETZ & PEDERSEN, 1994).

Segundo Rohde et al. (1995), durante exercício físico intenso, a demanda de glutamina no músculo e em outros órgãos é tanta, que os linfócitos atravessam um período de déficit desta substância, afetando temporariamente suas funções.

O somatório desses fatores talvez forneça a razão pela qual os esforços intensos e prolongados desempenham um papel negativo sobre a capacidade orgânica de defender-se de agentes infecciosos. Assim, deve-se ter cautela na elaboração dos trabalhos aeróbios, principalmente para aqueles praticantes que desejam efeitos a curto prazo, submetendo-se a longas e exaustivas sessões de treinamento.

Outros aspectos ainda podem ser levados em consideração. A freqüência de treinamento também deve ser objeto de cuidados, visto que, conjuntamente com a intensidade e duração das sessões, poderá promover uma sobrecarga considerável ao aluno. Em linhas gerais, pode-se dizer que a freqüência de trabalho deve permitir um período de repouso suficientemente amplo entre as sessões, de modo a promover a recuperação do estímulo administrado na sessão anterior.

O estado de treinamento também possui grande importância na relação exercício-sistema imune. A severidade das modificações imunológicas induzidas por um exercício, isoladamente, é inversamente proporcional ao condicionamento físico do indivíduo (MC CARTHY & DALE, 1988). Isso deve ser levado em conta para a prescrição de exercícios em períodos nos quais o clima varia consideravelmente de um dia para outro, por exemplo. Suponhamos que, ao longo de um dia quente e seco que sucede um dia frio, um aluno bem-condicionado, e outro iniciante, realizem exercícios aeróbios seguidamente, a 70% de seu VO2 máx., durante quarenta minutos. Talvez esse esforço não cause nenhuma implicação siginificativa para a saúde do aluno mais bem-condicionado, mas o mesmo pode não acontecer com o iniciante.

Durante infecções mais severas, os estudos em geral apontam que se deve evitar a prática de exercícios físicos (ROBERTS, 1986). Isso parece ser um argumento lógico, visto que as reservas imunológicas estão comprometidas, em função da defesa do organismo.

Porém, infecções mais brandas não excluem obrigatoriamente a prática da atividade física. Exercícios aeróbios de baixa intensidade, desde que adequadamente prescritos, podem ser realizados sem prejuízos à saúde.

Com o objetivo de determinar uma linha de ação durante uma infecção, Eichner (1993) sugere que o aluno deva iniciar a atividade física abaixo do seu ritmo normal durante dez minutos. Caso esteja apresentando sintomas 'acima do pescoço' (nariz entupido ou coriza, e garganta arranhando), ele poderá continuar, caso se sinta bem. No entanto, se houver qualquer sintoma 'abaixo do pescoço' (dores musculares, tosse, vômito, diarréia ou febre), o treinamento deve ser imediatamente interrompido.

Finalizando, gostaria de ressaltar que os possíveis benefícios ou prejuízos da prática de atividades físicas de longa duração sobre o sistema imune guardam íntima relação com o estado de saúde do praticante e com a forma pela qual o trabalho será conduzido. Cabe ao treinador decidir se em determinadas condições é fundamental realizar o treinamento e quais as bases metodológicas que devem nortear a prescrição do mesmo. Dessa forma, será possível obter melhorias na aptidão física, sem contudo expor o indivíduo a fragilidades orgânicas.

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