sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pra quem não leu ... ou perdeu algum capítulo

Década de 70. Era o auge da Discoteca no Brasil. Na televisão, o seriado infantil Sítio do Pica Pau Amarelo era um sucesso, com a Emília, o Visconde de Sabugosa, e Cuca e todo o elenco que retratava o folclore brasileiro com primazia. O incrível Hulk com o Lou Ferrigno também fazia um sucesso lascado, ao lado do Homem de Seis Milhões de Dólares e a Mulher Maravilha.

Bruce Lee e John Travolta faziam filmes enquanto a juventude usava calças boca de sino, colar de miçangas, estampas florais. O ecstasy estava começando a se difundir e a novela de sucesso, da época, era Estúpido Cupido.
E foi em meio a essa parafernália cultural, que no dia 19 de março de 1972, no hospital D. Pedro II, na Móoca, São Paulo, de fórceps, nasce um garoto de 50cm, 3,2kg, chamado Roberto Dantas Lopes. Quase trinta anos depois esse garotinho seria conhecido como Betão Marcatto, mas a gente chega lá mais pra frente.

De acordo com o pré-natal, eu deveria ter nascido 6 dias antes, no dia 13 de março. Com sede, morto de fome e sem alternativa, acabei bebendo a água da placenta, o líquido amniótico (claro, era esperto, líquido amniótico deveria estar cheio de aminoácidos). Mas é nesse líquido também que se concentram as substâncias excretadas pelo feto. O resultado é que tive que ficar quase 30 dias internado antes de ser liberado pra vida. 

Cresci em um ambiente feliz, com meu irmão, dois anos mais novo, brincando de Playmobil, carrinhos de fricção (ainda não tínhamos esses de controle remoto) e amarelinha (Ops! Amarelinha, não!!!).

Com seis anos fui para a pré-escola, onde tive aulas com a professora Ermínia, uma mulher muito alta (pra mim era muito alta, eu tinha 6 anos) mas muito boazinha. Nossas mesas eram redondas e acomodavam 5 alunos. Sentavam ao meu lado : Fábio, um menino que ia para os Estados Unidos direto (na época, eu achava que era muito longe, mas muito mesmo, tipo na Lua), Robson, um garoto franzino que vivia com o nariz escorrendo (eu tinha nojo daquilo), Juarez, uma menino negro que chorava por qualquer coisa, Israel, que era o gordinho da sala (naquela época não se usava o termo bullying mas ele sofria bastante com as brincadeiras) e eu, o garoto mais bonito da sala (pô, eu achava isso, ué) e com o futuro mais promissor de todos : eu queria ser desenhista, jogador de futebol ou fazer o que meu pai fazia (seja lá o que fosse). Meu irmão queria ser japonês.

Já no primeiro ano, me destaquei como melhor aluno da sala. Minha mãe, toda orgulhosa, adorava ir na reunião com a professora Zuleica pra ouvir que eu era bom. E isso se repetiu na segunda série com a professora Maria Cecília, na terceira com a professora Cassiana (que tinha uma variant laranja, meu sonho de carro naquela época) e com a professora Laura na quarta série. Sim, eu me lembro dos nomes das professoras, posso dizer o número das salas onde estudei e me lembro até de alguns números da chamada da escola. Não sei pra quê guardo tudo isso na memória. Talvez tenha sido pra poder escrever esse livro. Vai saber ...

Se minha infância foi feliz, não posso dizer exatamente isso da minha adolescência. Com o passar dos anos, fui acumulando um tal de “pneuzinho”, muito chato por sinal, que insistia em se sobressair em camisetas mais justas. Mas isso não me incomodava tanto quanto tirar um “B” em uma prova (hoje em dia acho que as notas são numéricas, mas, naquele tempo, iam de A, melhor nota, até E, nota péssima). Sempre gostei de estudar e essa paixão só aumentava com o passar dos anos. Da quinta á oitava série era taxado de CDF por todas as salas pelo qual passava. Nunca havia repetido um ano, nem ficado de recuperação. Minhas aulas sempre acabavam mais cedo que a da maioria dos meus colegas. Hoje, seria chamado de nerd.

Vestibulares não eram problema pra mim. Escolhia a escola pública que queria, fazia o vestibular e podia escolher onde estudar. Mas isso tudo era fruto da minha dedicação. Estudava e estudava muito. Fiz vestibular pra entrar em um cursinho pré-vestibular em uma das melhores escolas técnicas de São Paulo, a Federal. O cursinho se chama PEBE (Programa Especial de Bolsas de Estudos) e todo bimestre, infelizmente, os alunos que não conseguiam alcançar a média, que era 7,0, eram desligados do cursinho. Cruel ou não ? Fazia o PEBE de manhã e a oitava série de tarde. Estudava o dia todo mas ainda não estava feliz, queria mais!

Iniciei meus estudos técnicos na ETE São Paulo, fazia eletrônica e nunca me esquecerei que fiquei em 22º na classificação geral no vestibular. Pra mim, um fiasco! Queria estar entre os primeiros. Prometi a mim mesmo que iria me dedicar mais quando fosse fazer o vestibular da Faculdade. Quatro anos depois, entrei na FATEC-SP para o curso de Tecnologia Mecânica em Processos de Produção em 7º lugar. Isso sim era uma classificação histórica!

Mas voltando ao curso técnico, sentava na primeira carteira, coisa de nerd mesmo, só tirava notas altas, era o primeiro da sala, competindo sempre com um amigo que sentava ao meu lado, um japonês maluco que falava 5 línguas diferentes. Tinha orgulho de mim mesmo e ficava frustrado quando minha nota era inferior a 8,0. Já tinha decidido : seria engenheiro, ganharia bem, compraria um carrão e uma casa espaçosa. Estudava demais mas para mim não era o suficiente. Comecei a fazer um curso aqui em São Paulo, de domingo, chamado Matemática Aplicada a Vida, onde aprendíamos a fazer consultorias para grandes empresas. O professor super conceituado na área, Aguinaldo Prandini Ricirei, nos ensinava a produzir o máximo com o mínimo, tudo através de cálculos, derivadas, integrais. Eu estava feliz por estar estudando 7 dias por semana. Faria estágio em uma multinacional mais tarde, onde seria promovido diversas vezes por minimizar os gastos de produção. Depois disso, entraria em uma faculdade de tecnologia mecânica gratuita, a FATEC-SP, e posteriormente de engenharia de produção (FEI).

Mas ainda no colégio técnico, em uma aula de Português, a professora (Ana Maria era seu nome) quis inventar uma atividade que mudaria minha vida por completo : ela inverteu os alunos de lugar. Os alunos que sentavam nas primeiras carteiras (os mais quietinhos, mais santos, mais disciplinados ... e eu estava nesse grupo seleto de estudiosos) teriam que sentar na última fileira e os alunos da última fileira de carteiras (os bagunceiros) sentariam na frente. Tudo muito inofensivo se não fosse por um aluno que chegou atrasado e foi se sentar na última fileira, ao meu lado, por falta de lugar. Mas esse já era o lugar dele, ou seja, o cara era um baderneiro que tirava notas baixas. Mas a professora não se importou, não queria ter que remanejar a sala novamente.

Nunca esquecerei seu nome : Mauricio de Arruda Gresele, vulgo Alemão. Era um cara forte, branco pra caramba, cabelos compridos que quase não falava. Ele se sentou ao meu lado e soltou “E aí, franguinho, que está fazendo aqui ?”
Franguinho ? Que diabos era isso ? Achei, na época, que chamavam os estudiosos de franguinho, que fosse uma gíria do pessoal do fundo e dei de ombros pro cara. Ignorei.

Na hora do intervalo comecei a reparar na figura que se sentava ao meu lado. Tinha os braços fortes, antebraço grosso, estava comendo frango desfiado em uma tupperware de plástico azul. Fiquei com nojo daquilo ... e que cheiro horrível !!! Fui até a cantina, pedi uma batata-frita tamanho grande e uma coca-cola de 500ml. Quando voltei, outro rapaz (que a professora havia colocado nas primeiras fileiras de carteira) estava conversando com ele, Fábio Zuccaratto, que apelidamos de Grandão. O cara tinha mais de 1,95m e também era um monstro, feito o Alemão. Tinha quase 45cm de braço (estou falando de um rapaz de 18 anos na década de 90, amigos, ou seja, era impressionante). Os dois conversavam sobre um tal de supino que não entendi muito bem, afinal estava esperando a aula de circuitos elétricos com o Professor Taguchi, que estava sempre atrasado e eu estava lendo a apostila do curso, provavelmente pela sexta ou sétima vez.

Sentado na cadeira e assistindo a aula, olhei novamente para o Alemão e reparei que em seus braços haviam veias saltadas. Olhei pro meu e não vi nada daquilo. Logo pensei “deve ser porque ele usa drogas”.

Quando retornei para minha carteira, pois a aula de Português já havia acabado, uma moça (uma das duas que fazia o curso técnico em eletrônica) comentou : “Bem que o Alemão podia ter ficado aqui do meu ladinho”.
Como assim ???? Ela não queria que eu ficasse do lado dela ??? Eu usava perfume, pô !!! Era o mais inteligente !!! O que ele tinha que eu não tinha ???
Fácil de acertar essa, né ? Músculos !

Ele com seus 3 anos de maromba chamava mais a atenção que eu, minhas notas altas e meus bracinhos flácidos de tanto estudar e comer porcaria na hora do intervalo. Se estivéssemos na natureza, ele seria o leão, o macho alfa, e eu ... bom ... eu seria um porco-do-mato, o veadinho indefeso ou algo assim, que logo seria devorado por predadores maiores. E não gostei nada da metáfora.

Os dias foram se passando e eu comecei a observar mais os dois alunos que citei acima. Eles eram diferentes do resto da turma. Usavam camisetas apertadas, levavam marmita (porque o colégio técnico era no período integral), não comiam as porcarias que vendiam na cantina e falavam sobre aquele maldito supino todos os dias. Além disso, eram fortes, pareciam que haviam saído de uma história em quadrinhos, tinham veias aparentes e na aula de educação física só fingiam que corriam (depois descobri que eles detestavam aeróbio). Eram amados e temidos por todas as outras salas da escola.

Coincidentemente, em uma dessas semanas, meu pai trouxe uma fita VHS pra gente assistir em nosso primeiro vídeo-cassete. Reuniu toda a família e assistimos “Comando para Matar” com Arnold Schwarzenegger. Definitivamente, esse filme ajudou a alavancar toda a mudança que estaria por vir. Assisti o filme, vidrado, e imaginando como alguém poderia ficar daquele tamanho. Lembrei dos 2 rapazes que estudavam comigo. Na cena em que ele está no bote remando, peitoral avantajado e braços musculosos. Era exatamente isso que eu queria pra mim !!!

No dia seguinte, fui conversar com os dois ogros, com muito cuidado, afinal, achava que caras que faziam musculação eram violentos. Vi no filme, no dia anterior, que o Arnold matou um monte de gente ... e ele era forte. Iniciei uma conversa como quem não quer nada, falando sobre a prova do dia. Quis dar uma de malandro pra entrar no clima dos dois que não estudavam.
“Fiquei sabendo que vai ter prova hoje. Vai mesmo ? Vocês estão sabendo de alguma coisa ?” E fui prontamente ignorado pelos dois que continuavam falando do tal supino.

Quando saí do colégio, peguei o ônibus e desci 3 pontos antes do que deveria pra conhecer uma academia perto de casa. Ia perguntar pro pessoal da escola sobre musculação mas eles não me ouviram. Então, resolvi ir sozinho e me aventurar nesse mundo desconhecido. Já fazia artes marciais há 2 meses, mais pela disciplina e por influência do Daniel San do Karatê Kid, logo, era só trocar a modalidade. Não falaria nada para o meu pai, porque ele reprovaria a idéia, mas a moça obesa da recepção ligou pra ele logo em seguida, frustrando todo o meu plano. Felizmente, ele aceitou de boa, dizendo que estava na hora de eu ficar mais fortinho mesmo.

A moça, recepcionista obesa, me disse que eu precisava vir um dia à noite pro professor me ensinar a série, já que eu iria fazer musculação pela manhã e, nesse período, não havia ninguém pra me orientar.

Fui, aprendi a série ... e a fiz durante 2 anos, sem alterar carga ou exercício. Fazia supino com 6 quilos de cada lado, três séries de 10 repetições. Dois anos !!! Dois anos perdidos, jogados fora ... até que, um certo dia, peguei coragem e fui conversar com os 2 ogros novamente ... sim ... 2 anos depois do primeiro contato com eles. E, então, conheci um outro mundo. Deram um enorme tapa na minha cara, metaforicamente falando. Foi como se eles me tirassem da mais santa ignorância e me mostrassem o caminho da glória. Entendi que tudo o que havia feito nesses dois anos foi perder meu tempo e dinheiro. O professor não deu a mínima pra mim, a academia não deu a mínima também. Ninguém se importou. Eu era mais um aluno frustrado, mais um número no canto superior direito de uma carteirinha mal feita. Cheguei em casa e olhei a carteirinha com minha foto e meu número de matrícula : 2704. Pude ver claramente que eu não era nada pra eles, só mais um aluno. Aquilo me deixou tão mal que até hoje, a BetoFlex não possui carteirinha pra acesso, tamanho foi o trauma que fiquei daquele acessório imprestável. Mas eu não desistiria. Não agora !

Comecei a comprar revistas de musculação “Mister Vigor”, trocar idéia com marombeiros e nunca ... eu escrevi NUNCA ... nunca mais segui treino de nenhum professor tamanha foi a ira que fiquei ao saber que minha série, a minha série plastificada e cheia de adesivos irados, que eu guardava na primeira gaveta da cômoda do meu quarto, era uma série que deveria ser trocada de vez em quando. E ai começou minha caminhada na musculação, com muitos acertos e muitos tropeços. Os dois me ensinaram muita coisa, coisas como série pirâmide, super-série, drop-sets, negativa, repetição forçada. Estratégias que eu nem sabia que existiam e que me foram tão úteis tempos depois.

Tenho-os como meus heróis da maromba. Acredito que se não fosse por eles, não estaria mais puxando ferro e teria me dedicado a qualquer outra coisa que não fosse ligada à musculação. Claro que depois disso vieram os livros, a internet, a faculdade de educação física (que não serviu pra nada), tudo mais ligado à musculação com sabedoria. Mas considero-os como os 2 caras que deram o pontapé inicial na direção certa para meus estudos na maromba.

Bom, e foi assim que começou o meu namoro com a musculação, que dura até hoje. E foi por isso que segui essa área. Porque musculação é sinônimo de mudança, de superação. Foi onde aprendi a melhorar cada dia um pouquinho. Você consegue transportar tudo o que aprende na sala de musculação pra sua vida fora da academia. A disciplina, a dor, a frustração ... tudo aquilo que você provavelmente vai ter que passar, sentir e viver, você já passou na academia. E aprendeu com isso, tornando a vida, se não mais fácil, mais tolerável.

Gostaria de frisar algo muito importante aqui : conhecimento é a base de tudo. Informação seguida de “ação” é o caminho. Não adianta conhecer e não colocar em prática, assim como não adianta treinar sem conhecimento. Se queres progresso, estude, mas estude muito mesmo. Falastrões existem aos bandos, estão sempre prontos pra te devorar, feito hienas famintas, vomitando em você um monte de informação inútil, com seus diplomas embaixo do braço e participando de pseudo-campeonatos de fisiculturismo.

Quer um conselho de amigo ? Compre livros, revistas de musculação. Pergunte ! Opine ! Converse com os marombas mais velhos. Escute !
É assim que vamos aprendendo, aperfeiçoando nossos conhecimentos, lapidando nossas atitudes, diferenciando o que serve do banal. Somente com o acúmulo da informação e o filtro certo teremos sucesso nessa empreitada árdua a caminho da satisfação pessoal.
Mas a história não pára por aqui. Não há como escrever “começou a treinar, ficou grandão e viveu feliz para sempre”. Infelizmente, não.

Vamos agora voltar à década de 90 e detalhar esse início conturbado da prática de puxar um ferro.
A primeira academia que treinei (dois anos a mesma série) se chamada Pantera Negra. Era uma academia mais voltada para luta e meu irmão, que queria ser japonês na infância, fazia Taek-Won-Do. A sala de luta era enorme, com sacos de pancada, bastões, colchonetes. Mas aquilo não havia me atraído tanto. Comecei a lutar pra fazer companhia pro meu irmão mesmo. Mas depois que vi que os dois rapazes da minha sala eram os maiorais, troquei minha aula com o professor-mestre Valdomiro por uma sala bem menor com anilhas azuis, barras cromadas, um peck deck, um leg 90º (raro de se encontrar hoje), uma mesa extensora-flexora, bancos retos e inclinados, um pulley e alguns pesinhos coloridos no chão (que só eu usava). Era simples pra época mas pra mim era a sala dos machões. Pra mim, eu estava em um ambiente proibido : quem era mulherzinha fazia luta, nós, os maiorais, fazíamos musculação. E foi assim por 2 anos inúteis.

Quando fui trocar de academia, fiquei perdido. Procurei uma perto de casa mas naquela época, musculação era coisa de bombado, ignorante, bruto ou somente pra competição. Academia fitness ? Graças a Deus não existia. 

Meu pai me buscava de carro e eu achava isso o maior mico. Um dia me atrasei pois estava tentando tirar a presilha da barra da rosca direta com uma certa dificuldade, meu pai passou de carro em frente a academia e não me viu, como era de costume, na calçada. Como era uma avenida e não tinha lugar pra parar, ele decidiu dar uma volta de carro no quarteirão. E nessa volta, ele achou uma academia na rua do Correio, a academia Trainer Sidnei.

Fui conhecer a academia em um outro dia, sozinho e a pé (foi um momento de liberdade indescritível). Não que eu não gostasse que ele fosse me buscar, principalmente em dias de chuva, mas eu fazia musculação, pô. Tinha que fazer cara de mau, encarar todo mundo, andar como se carregasse um balde de cimento em cada mão e meu pai ia me buscar ? Não combinava !

Bom, subi as escadas da academia, que ficava em cima de um correio e já ouvia uma música diferente, era rock (e eu ainda não curtia muito, preferia o LP que meu irmão, que queria ser japonês, tinha : House Remix com músicas do Noel, tipo a Silent Morning ou do Bomb The Bass).

Quando cheguei na recepção, um rapaz de regata, grande, me atendeu. Era o dono da academia, Sidnei, que havia sido campeão de fisiculturismo em alguns anos anteriores. Lembro que havia um quadro na parede com ele, em cima de uma pedra fazendo pose. Sidnei Lima também fazia aniversário no mesmo dia que eu e parecia que havia tomado mais líquido amniótico que eu, pois era bem maior.

Na sala de musculação só caras grandes : Valério Bezerra, que era chamado de Grilo e anos mais tarde seria campeão em vários eventos de fisiculturismo, Elias um cara que também seria fisiculturista, conhecidíssimo aqui em Guarulhos, Daniel Bruno, Ralado, Eduardo Casadei, enfim, só havia o pessoal grande, dedicado e sedento por pesos. Havia encontrado meu segundo lar. Era isso o que eu queria pra mim. Um ambiente irado (não usávamos o termo hardcore), cheios de pesos, cheio de máquinas e duas vezes maior que a Academia Pantera Negra. 

As séries estavam grudadas na parede, desde a primeira até a quarta série. Como estava com trauma de séries prontas, fingi que fiz a primeira mas, na verdade, fiz um mix do que o pessoal do colégio técnico havia me ensinado. Lembre-se : eu nunca mais fiz aquelas séries que me passavam por pura raiva e frustração.

Mas uma coisa aí começou a me incomodar : porque todo mundo crescia e eu não ? Estava trocando de série a cada 3-4 meses. O Sidnei elogiava a performance do Grilo, do Elias ... e eu não conseguia impressioná-lo, era só mais um na academia.

Escutei o pessoal falando de bomba, pra lá e pra cá, que ia inchar, aumentar, ganhar volume, que winstrol secava (essa lenda absurda já vigorava por lá, aliás, desde 1986 que se tem essa impressão por causa do Bem Jonhson, na Olimpíada). Só que eles diziam que era injetável. Injetável ???? Meus Deus, tô fora!

E essa “deixada de lado” me desanimou mesmo. Estava acostumado a ser o melhor, o centro das atenções, o melhor aluno. Como meu tempo estava ficando escasso e lá no Sidnei eu não era o melhor, ia trocar de academia, arrumaria uma perto da ETESP mesmo. Na antiga estação Ponte Pequena (hoje, Armênia) havia uma academia Gaviões, no primeiro andar de um prédio comercial. Era pra lá que eu iria.

A academia era enorme, cheia de máquinas (algumas eu nunca usei). O instrutor era um cara forte chamado Márcio, que também fazia karatê. Primeiro dia, ele quis me passar uma série e eu disse que queria fazer a minha mesmo. Desse dia em diante, ele não olhou mais pra mim.
Com o passar dos dias, percebi, finalmente, que o erro não estava na academia e, sim, em mim, pois naquele ambiente também havia, como na academia do Sidnei, os caras grandes, fortes. Um deles, um barbado que sempre ia de regata, chegou a me contar que bebia um copo de sangue todos os dias depois do treino. Claro que não acreditei mas fingi que sim. Acho que eu tinha cara de bobo o suficiente para despertar esse tipo de sentimento nas pessoas : me enganar com histórias sem pé nem cabeça.

O que vou relatar agora está guardado em minha cabeça como se fosse uma novela da Globo. Lembro dos personagens, das cenas, das falas. Até o sentimento de frustração, medo consigo reviver. Pena que o personagem principal da trama sou eu. 

Na nova academia, o fator “grandeza” era algo muito forte. Todos queriam ser grandes, os maiores, os mais fortes. Havia um rapaz que dizia tomar uma “dura” por dia. Ele era forte. Não do jeito que eu queria ser, pois tinha uns braços meio roliços, algo como uma peça de mortadela. Lembro-me que foi o primeiro cara que vi que fazia supino com 40kg de cada lado. Isso realmente me impressionou, na época (claro, eu fazia com 10kg). Não me lembro do seu nome mas era um nome meio engraçado pra época. Ele também mentia pra caramba. Não que falasse comigo, mas eu ouvia sua voz pela academia. Sempre se exaltando com algo ou alguém. E só ia treinar de regata. Aliás, sempre a mesma.

Certo dia, cansei de ser frango. Os corredores da academia nova era um prato cheio pra quem quisesse se iniciar na prática do uso de esteróides. A maioria falava das doses, dos dias, dos ciclos, das injeções. Era um pessoal que treinava pra competir. Ouvi diversos nomes de esteróides. Dentre eles, um nome se destacou por ser uma febre pra época. Hemogenin.

Um dia, tomei coragem e fui até a farmácia comprar uma caixinha de Hemogenin. Naquele tempo, vendido sem receita, sem perguntas, sem firulas. Era chegar no balcão da farmácia, pedir, pagar e ser feliz. Bons tempos aqueles. Foi, então, que, na Rua Prates, do lado da Trident (onde comprei meu compasso e minhas réguas pro curso técnico) que adquiri minha primeira caixinha de Hemogenin. Fiquei eufórico e com muito medo.

Fui até a academia, no vestiário, e comecei a ler a bula. “Coma hepático” e “Morte”. Caraca ! Onde fui me meter ???
Minha cabeça começou a rodar ... fiquei assustado. Ninguém havia me falado que eu poderia morrer ! A bula mais parecia um cartaz de laudo médico que seria pendurado em uma funerária ! “Escolha aqui como você quer morrer depois de tomar o hemogenin. Meu Deus ! E agora ? Havia deixado de comprar meu lanche pra poder comprar aquilo. Tomar ou não tomar ?

Tinha a impressão que um capetinha e um anjinho estavam nos meus ombros. Um dizendo que eu iria morrer, que faria mal, que meu fígado ia se dissolver. O outro, dizia que eu iria ficar super forte, másculo e que as pessoas iriam me respeitar.

Estava com o comprimido na mão, olhando-o, pois já o havia tirado do blíster (sabia que aquele treco de alumínio se chama blíster?). Era branquinho, com um sulco no meio, provavelmente para cortá-lo no meio. E se eu o cortasse no meio? Teria um fim “meio” trágico ? Conseguiria ficar com “meio” fígado? Iria morrer pela metade? Minha cabecinha de adolescente não parava de pensar no funeral. Mamãe estaria toda de preto, chorando. Papai estaria sério, porém triste e pensando em como ajudar minha mãe nesse momento. Meu irmão e minha irmã estariam brigando pra ver quem iria ficar com meus pertences. Era uma dúvida cruel. Tomar ou não tomar?

Nesse momento sublime de reflexão, a porta do vestiário se abre e eu com aquele comprimido na mão. Assustado e quase que inconsciente, em uma tentativa de esconder meu “delito”, coloquei o comprimido na boca e o engoli sem água. Tinha um gosto estranho, enjoado, pois, sem a água, consegui sentir. Estava feito, não havia mais como voltar atrás. Se eu fosse morrer, seria dentro de alguns minutos ou algumas horas.

Fui treinar assustadíssimo, esperando algum efeito colateral que me fizesse passar mal, desmaiar. Lembro-me que era dia de treinar costas e fui pro puxador. Estava tão encucado que, nesse dia, tinha a impressão que todos olhavam pra mim, como se soubessem que eu havia feito algo “errado”, me olhando com desconfiança, meio torto.

À medida que o treino avançava, não sentia nada de anormal ou diferente. Havia lido que comprimidos faziam efeito rápido. Sim, eu tomava dipirona quando estava com dor de cabeça e duas horas depois não estava mais. Esperei algo do tipo. Ou eu estaria maior ou teria falência do fígado em duas horas. Lembrei do dia que eu comecei a treinar e me arrependi, deveria estar estudando e não puxando ferro. Tudo culpa do Alemão e do Grandão.

Fim de treino e eu não havia morrido nem ficado maior. Teria feito algo errado ? Na bula estava escrito pra tomar com bastante água!! Era isso! No dia seguinte, iria levar uma garrafinha e enchê-la até a “boca” pra engolir o comprimido.
E foi assim durante 10 dias. Melhorei minha dieta, comendo mais proteínas, mais carboidratos. Lembro de ter me pesado no começo e no final do ciclo. No início, estava com 74kg, magro que dava dó, pois, lembrem-se, tenho, e já tinha naquela época, 1,84m, e no depois de 20 dias estava com 82kg, me sentindo super forte, levantando pesos que nunca havia levantado antes e, o melhor, não havia morrido.

Eu descobri a mágica de ficar grande ....

Continua ...

3 comentários:

  1. Betão, estou curioso demais em saber o fim deste relato. Afinal de contas, valeu a pena? Você virou Engenheiro? Ansioso...

    Betão aos poucos vem conquistando minha admiração.

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  2. Sim, fiz Engenharia ... vou voltar a escrever, man ... abraço

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