sexta-feira, 13 de maio de 2011

Como iniciei na musculação


Muita gente que conheço há anos vem me perguntar porque deixei a “carreira” de engenheiro pra me dedicar a um negócio próprio voltado para uma área que não tem nada a ver com o Betão estudioso que eles conheciam. Perguntam-me porque deixei de trabalhar com processos de produção e me dediquei a montar uma academia e todas as dores de cabeça pertinentes a esse negócio. Porque trabalhar mais de 13 horas por dia ao invés de apenas 8 horas ? E porque comecei a treinar musculação já que não tinha afinidade com esportes ?

Minha formação é totalmente voltada para a área de exatas. Fiz colégio técnico na área de eletrônica. Na época, passei no vestibular em grandes escolas, conceituadas, todas públicas. Eram os anos 90. Sentava na primeira carteira, coisa de nerd mesmo, só tirava notas altas, era o primeiro da sala, competindo sempre com um amigo que sentava ao meu lado, um japonês maluco que falava 5 línguas diferentes. Tinha orgulho de mim mesmo e ficava frustrado quando minha nota era inferior a 8,0. Já tinha decidido : seria engenheiro, ganharia bem, compraria um carrão e uma casa espaçosa. Estudava demais mas para mim não era o suficiente. Comecei a fazer um curso aqui em São Paulo, de domingo, chamado Matemática Aplicada a Vida, onde aprendíamos a fazer consultorias para grandes empresas. O professor nos ensinava a produzir o máximo com o mínimo, tudo através de cálculos, derivadas, integrais. Eu estava feliz por estar estudando 7 dias por semana. Faria estágio em uma multinacional mais tarde, onde seria promovido diversas vezes por minimizar os gastos de produção. Depois disso, entraria em uma faculdade de tecnologia mecânica gratuita e posteriormente de engenharia de produção.

Mas ainda no colégio técnico, em uma aula de Português, a professora (Ana Maria era seu nome) quis inventar uma atividade que mudaria minha vida por completo : ela inverteu os alunos de lugar. Os alunos que sentavam nas primeiras carteiras (os mais quietinhos, mais santos, mais disciplinados ... e eu estava nesse grupo seleto de estudiosos) teriam que sentar na última fileira e os alunos da última fileira de carteiras (os bagunceiros) sentariam na frente. Tudo muito inofensivo se não fosse por um aluno que chegou atrasado e foi se sentar na última fileira, ao meu lado. Mas esse já era o lugar dele, ou seja, o cara era um baderneiro que tirava notas baixas.
Nunca esquecerei seu nome : Mauricio de Arruda Gresele, vulgo Alemão. Era um cara forte, branco pra caramba, cabelos compridos que quase não falava. Ele se sentou ao meu lado e soltou “E aí, franguinho, que está fazendo aqui ?”
Franguinho ? Que diabos era isso ? Achei, na época, que chamavam os estudiosos de franguinho e dei de ombros pro cara. Ignorei.

Na hora do intervalo comecei a reparar na figura que se sentava ao meu lado. Tinha os braços fortes, antebraço grosso, estava comendo frango desfiado em uma tupperware de plástico azul. Fiquei com nojo daquilo ... e que cheiro horrível !!! Fui até a cantina, pedi uma batata-frita tamanho grande e uma coca-cola de 500ml. Quando voltei, outro rapaz (que a professora havia colocado nas primeiras fileiras de carteira) estava conversando com ele, Fábio Zuccaratto, que apelidamos de Grandão. O cara tinha mais de 1,95m e também era um monstro, feito o Alemão. Tinha quase 45cm de braço (estou falando de um rapaz de 18 anos na década de 90, amigos, ou seja, era impressionante). Os dois conversavam sobre um tal de supino que não entendi muito bem, afinal estava esperando a aula de circuitos elétricos com o Professor Taguchi, que estava sempre atrasado e eu estava lendo a apostila do curso, provavelmente pela sexta ou sétima vez.
Sentado na cadeira e assistindo a aula, olhei novamente para o Alemão e reparei que em seus braços haviam veias saltadas. Olhei pro meu e não vi nada daquilo. Logo pensei “deve ser porque ele usa drogas”.

Quando retornei para minha carteira, pois a aula de Português já havia acabado, uma moça (uma das duas que fazia o curso técnico em eletrônica) comentou : “Bem que o Alemão podia ter ficado aqui do meu ladinho”.
Como assim ???? Ela não queria que eu ficasse do lado dela ??? Eu usava perfume, pô !!! Era o mais inteligente !!! O que ele tinha que eu não tinha ???
Fácil de acertar essa, né ? Músculos !
Ele com seus 3 anos de maromba chamava mais a atenção que eu, minhas notas altas e meus bracinhos flácidos de tanto estudar e comer porcaria na hora do intervalo. Se estivéssemos na natureza, ele seria o leão, o macho alfa, e eu ... bom ... eu seria um porco-do-mato, o veadinho indefeso ou algo assim, que logo seria devorado por predadores maiores. E não gostei nada da metáfora.

Os dias foram se passando e eu comecei a observar mais os dois alunos que citei acima. Eles eram diferentes do resto da turma. Usavam camisetas apertadas, levavam marmita (porque o colégio técnico era no período integral), não comiam as porcarias que vendiam na cantina e falavam sobre aquele maldito supino todos os dias. Além disso, eram fortes, pareciam que haviam saído de uma história em quadrinhos, tinham veias aparentes e na aula de educação física só fingiam que corriam (depois descobri que eles detestavam aeróbio). Eram amados e temidos por todas as outras salas da escola.
Coincidentemente, em uma dessas semanas, meu pai trouxe uma fita VHS pra gente assistir em nosso primeiro vídeo-cassete : “Comando para Matar” com Arnold Schwarzenegger. Definitivamente, esse filme ajudou a alavancar toda a mudança que estaria por vir. Assisti o filme, vidrado, e imaginando como alguém poderia ficar daquele tamanho. Lembrei dos 2 rapazes que estudavam comigo. Na cena em que ele está no bote remando, peitoral avantajado e braços musculosos. Era exatamente isso que eu queria pra mim !!!

No dia seguinte, fui conversar com os dois ogros, com muito cuidado, afinal, achava que caras que faziam musculação eram violentos. Vi no filme, no dia anterior, que o Arnold matou um monte de gente ... e ele era forte. Iniciei uma conversa como quem não quer nada, falando sobre a prova do dia. Quis dar uma de malandro pra entrar no clima dos dois que não estudavam.
“Fiquei sabendo que vai ter prova hoje. Vai mesmo ? Vocês estão sabendo de alguma coisa ?” E fui prontamente ignorado pelos dois que continuavam falando do tal supino.

Quando saí do colégio, peguei o ônibus e desci 3 pontos antes do que deveria pra conhecer uma academia perto de casa. Ia perguntar pro pessoal da escola sobre musculação mas eles não me ouviram. Então, resolvi ir sozinho e me aventurar nesse mundo desconhecido. Já fazia artes marciais há 2 meses, mais pela disciplina e por influência do Daniel San do Karatê Kid, logo, era só trocar a modalidade. Não falaria nada para o meu pai, porque ele reprovaria a idéia, mas a moça obesa da recepção ligou pra ele logo em seguida, frustrando todo o meu plano. Felizmente, ele aceitou de boa, dizendo que estava na hora de eu ficar mais fortinho mesmo.
A moça, recepcionista obesa, me disse que eu precisava vir um dia à noite pro professor me ensinar a série, já que eu iria fazer musculação pela manhã e, nesse período, não havia ninguém pra me orientar.

Fui, aprendi a série ... e a fiz durante 2 anos, sem alterar carga ou exercício. Fazia supino com 6 quilos de cada lado, três séries de 10 repetições. Dois anos !!! Dois anos perdidos, jogados fora ... até que, um certo dia, peguei coragem e fui conversar com os 2 ogros novamente ... sim ... 2 anos depois do primeiro contato com eles. E, então, conheci um outro mundo. Deram um enorme tapa na minha cara, metaforicamente falando. Foi como se eles me tirassem da mais santa ignorância e me mostrassem o caminho da glória. Entendi que tudo o que havia feito nesses dois anos foi perder meu tempo e dinheiro. O professor não deu a mínima pra mim, a academia não deu a mínima também. Ninguém se importou. Eu era mais um aluno frustrado, mais um número no canto superior direito de uma carteirinha mal feita. Cheguei em casa e olhei a carteirinha com minha foto e meu número de matrícula : 2704. Pude ver claramente que eu não era nada pra eles, só mais um aluno. Aquilo me deixou tão mal que até hoje, a BetoFlex não possui carteirinha pra acesso, tamanho foi o trauma que fiquei daquele acessório imprestável. Mas eu não desistiria. Não agora !

Comecei a comprar revistas de musculação “Mister Vigor”, trocar idéia com marombeiros e nunca ... eu escrevi NUNCA ... nunca mais segui treino de nenhum professor tamanha foi a ira que fiquei ao saber que minha série, a minha série plastificada e cheia de adesivos irados, que eu guardava na primeira gaveta da cômoda do meu quarto, era uma série que deveria ser trocada de vez em quando. E ai começou minha caminhada na musculação, com muitos acertos e muitos tropeços. Os dois me ensinaram muita coisa, coisas como série pirâmide, super-série, drop-sets, negativa, repetição forçada. Estratégias que eu nem sabia que existiam e que me foram tão úteis tempos depois.

Tenho-os como meus heróis da maromba. Acredito que se não fosse por eles, não estaria mais puxando ferro e teria me dedicado a qualquer outra coisa que não fosse ligada à musculação. Claro que depois disso vieram os livros, a internet, a faculdade de educação física (que não serviu pra nada), tudo mais ligado à musculação com sabedoria. Mas considero-os como os 2 caras que deram o pontapé inicial na direção certa para meus estudos na maromba.
Bom, e foi assim que começou o meu namoro com a musculação, que dura até hoje. E foi por isso que segui essa área. Porque musculação é sinônimo de mudança, de superação. Foi onde aprendi a melhorar cada dia um pouquinho. Você consegue transportar tudo o que aprende na sala de musculação pra sua vida fora da academia. A disciplina, a dor, a frustração ... tudo aquilo que você provavelmente vai ter que passar, sentir e viver, você já passou na academia. E aprendeu com isso, tornando a vida, se não mais fácil, mais tolerável.

Gostaria de frisar algo muito importante aqui : conhecimento é a base de tudo. Informação seguida de “ação” é o caminho. Não adianta conhecer e não colocar em prática, assim como não adianta treinar sem conhecimento. Se queres progresso, estude, mas estude muito mesmo. Falastrões existem aos bandos, estão sempre prontos pra te devorar, feito hienas famintas, vomitando em você um monte de informação inútil, com seus diplomas embaixo do braço e participando de pseudo-campeonatos de fisiculturismo.

Quer um conselho de amigo ? Compre livros, revistas de musculação. Pergunte ! Opine ! Converse com os marombas mais velhos. Escute !
É assim que vamos aprendendo, aperfeiçoando nossos conhecimentos, lapidando nossas atitudes, diferenciando o que serve do banal. Somente com o acúmulo da informação e o filtro certo teremos sucesso nessa empreitada árdua a caminho da satisfação pessoal.

6 comentários:

  1. Poxa cara um exêmplo de superação o teu cara, eu estava desse jeito e acho que um pouco pior, porém certo dia percebi que não tinha força pra praticamente nada e era um nerd que todos que olhavam dizia esse menino tem alguma doença, mas não deixei com que os obstáculos me fizessem cair!

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  2. Então és um guerreiro, irmão ! Tamo junto !

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  3. Incrível Betão, ótima história!

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  4. Ler a sua história me fez repensar o caminho que trilhei até chegar a ser o cara que eu sou... 13 anos já... Vejo que perdi muito tempo com bobagens e erros, mas estou sempre faminto! Esse é o segredo...

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  5. incrivel Betao bacana mesmo sua historia!

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